No texto da galeria de diretores brasileiro, mencionei que o Ody Fraga era um cineasta da boca. Olhando de novo percebi que muita gente pode não ter referência do que foi a Boca do Lixo de São Paulo. A foto em que temos os cineastas Rogerio Sganzela, Carlos Reichembach e Antonio Lima eles posam em frente ao bar Soberano, que ficava no meio do quarteirão da rua do Triunfo entre as ruas Vitória e dos Gusmões. Lá ferveu o cinema brasileiro por pelo menos duas décadas. Por sua proximidade da estação Júlio Prestes (Estação da Luz) o local foi escolhido pelos distribuidores de filmes para fazer as fitas viajarem de trem. Boa parte dos distribuidores eram também produtores e aonde tem produtores começam a aparecer diretores, fotografos, atrizes, atores, maquiadores, maquinstas, eletricistas, músicos, aspirantes a alguma coisa, etc, O bar Soberano se tornou o escritório de muita gente, lá se contratava profissionais, se discutia roteiros, marcava-se a saida de equipe para filmagem, comemorava o sucesso ou afogava as magoas do fracasso do filme, enfim que bar! alias que rua! A primeira vez que fui lá, foi com o ator e diretor Flavio Portho protagonista do filme de Roberto Santos "O Anjo Mau", ele me apresentou seu pareceiro e fotografo Moreira e acabei conhecendo uma penca de: gente do cinema. Trabalhei no filme "Alugam-se Moças" do Deni Cavalcanti, "Sexo e Violencia" do Faissal. "Aopção ou as Rosas do Asfalto" de Ozualdo R. Candeias,que não colocou meus créditos no filme, "Filme Demência" do Carlão. A rua do Triunfo foi homenagiada no livro" Uma rua chamada Triupho" de Ozualdo Candeias que é de onde eu tirei estas duas fotos (alias sampleio muitas fotos de lá), o livro é sensacional, livro de cineasta da boca tem mais foto que letra. a Boca do Lixo merece ser mais estudada, Este é apenas um blog introdutório. Na segunda foto no canto direito Flavio Portho, foto também tirada na porta do Soberano   
 No final de março deste ano (2006) perdemos Goffredo da Silva Telles Neto, cineasta, videomaker uma pessoa dedicada a sua obra audiovisual. Artista solitário, isolado, Goffredo ao mesmo tempo circulava por vários meios e representava muito bem, para não dizer que foi um dos precursores, do momento da transição do cinema para o vídeo; do analógico para o eletrônico. Sempre valorizou mais o discurso do que o suporte. Nos anos 80 o preconceito da classe cinematográfica ao vídeo era tenaz, quem diria que os longas metragens de hoje iriam ser editados em computadores e não nas pesadas moviolas. Gofredo nunca foi ortodoxo neste aspecto. O único trabalho que fizemos juntos o vídeo patrocinado pela Embrafilme : Notícias de Paulo Emílio é um belo exemplo desta transição. Falavamos de cinema em vídeo. A equipe era formada pelo histórico camera da TV Gerubáu , Rafael Issa na segunda unidade, Paloma Rocha de assistente de direção, edicão de João Jardim e produção minha (aliás foi o único trabalho que produzi sem ser meu, agradeço o crédito ao Goffredo) Neste vídeo que foi uma colage sobre um poema do critico amigo irmão de Paulo Emílio; Francisco de Almeida Salles, era ilustrado por diversos materias (fotos, viídeos, super 8) e locais que remetiam a história deste que foi um dos maiores construtores de uma idéia de cinema nacional. Entre as locações definidas no roteiro, curiosamente uma era o Zoológico, Goffredo queria fazer uma homenagem ao simbolo que durante um período na infancia do fundador da Cinematéca Brasileira foi sua única referência com o mundo exterior, a Girafa. Sim durante uma enfermidade aos 4 ou 5 anos Paulo Emílio só dizia Fáfá e andava com sua girafa de pano, depois começou a falar e deu no que deu, o gênio. Outras locações foram o museu do comendador Martinelli, que era dono do famoso cão do "Vigilante Rodovíário" e uma oficina que consertava projetores de cinema, além do bar do Museu de Arte Moderna do qual Francisco Almeida Salles era o presidente. O vídeo foi exibido uma unica vez no MIS de São Paulo no lançamento do livro "Paulo Emílio Um Intelectual na Linha de Frente", o Goffredo sempre quis fazer uma remontagem ou ainda ampliar o vídeo, sei que ele estava trabalhando justamente num projeto sobre o seu pai (de criação) Paulo Emílio. Entre outros trabalhos ele realizou: Fogo Fatuo, Narrarte, Abre a Jaula, Babel, Fantasia Trinfal, além de ter sido o produtor que viabilizou as cópias do filme lisérgico de José Mogica Marins, O Despertar da Besta. Entre recordacões pessoais digo esta, quando estava voltando da gravação de um vídeo de Hemano Penna chamado Amor e Patriotismo em que fiz uma ponta como ator, e falei pro Goffredo: - o Hermano me chamou para fazer o papel de Oswald de Andrade e o Gô disse; - Poxa mas como? voce é a cara do Humberto Mauro!. Enfim ficam as saudades e o trabalho deste artista brasileiro. PS: foto cedida por Mari Pini 
Luiz de Barros polêmico e profícuo diretor do cinema nacional, narra em seu livro, Minhas Memôrias de Cineasta, o epísodio do seu primeiro filme sonoro, em 1929 (foto abaixo) e logo primeiro filme sonoro brasileiro. Tendo começado no cinema em 1915 com o filme "Hei de vencer", Lulu como ficou conhecido realizou aproximadamente 80 filmes sendo o último de 1977 "Ele, Ela, Quem?"(foto abaixo) Mas vamos a narrativa de Lulu sobre o primeiro filme sonoro: Um dia, encontrando na rua o Sr. Bruno, que era, naquele momento, diretor das Empresas Cinematográficas Reunidas, que estava entusiamado com o cinema sonoro, que acabava de chegar, eu lhe disse, confesso que prar gozá-lo: - Ora, Sr. Bruno, não é só americano que faz filme falado. Eu também vou fazer um. Ele acreditou e, continuando com seu entusiasmo: -Vai? Como se chama o filme? - ACABARAM-SE OS OTÁRIOS. -Eu faço negócio no escuro. Vamos ao escritório. Fui. Conversa vai, conversa vem, saí de lá com negócio fechado e data marcada para a estréia do filme! Mas como eu iria fazer um filme falado? Não tinha nem conhecia as máquinas especiais para esse fim! Que fazer? Bem sei que audaces fortuna juvat, mas... De repente, lembrei-me do que havia acontecido nos estúdios da Gaumont. Lá faziam experiências, já naquela época, para dar som, dar voz ao cinema. Eles queriam fazer um filme de curta metragem, no qual um artista cantava. Era uma canção espanhola. Mais uma vez o meu físico, parecido com espanhol, me ajudou. Na cena em que o cantor se exibia, havia no fundo uns guitarristas que, como o som já estava gravado não precisavam saber tocar. Era só ato de presença. Pedi para figurar nesse grupo, que era a forma para eu melhor ver o que faziam. Como o negócio era de espanhol, mais uma vez me aceitaram. Vesti-me com uma roupa típica que me deram e , com uma guitarra na mão, fui sentar-me no estrado destinado aos músicos. Eles faziam o seguinte: ligavam a câmara de filmar a um gramofone...sim, já que não havia amplificadores, alto-falantes...Assim, o artista tinha de ouvir, para acompanhar, fingindo que cantava, o som que vinha do gramofone movido pela câmara, a qual , por sua vez, era tocada por um motor. Então, ele tinha de fazer os movimentos sincronicamente com o som que ouvia. É o que hoje chamamos no cinema de playback, e erradamente na TV chamam de dublagem. Então, eu procurei a fábrica de filme Parlophon e contratei a gravação de diálogos entre Tom Bill e Genésio Arruda, que seriam os protagonistas dos filme, junto com Lully Málaga. devo dizer que na ocasião tambem se projetavam filmes cujo som vinha gravado em discos. Na Gaumont, não dispondo de aparelhagem para unir o filme, da cabine de projeção, ao som produzido por um gramofone colocado atrás da tela, eles tiveram de adaptar ao gramofone um ponteiro colocado na frente e atrás da tela, e colocar na cabine, um outro ponteiro, ligado ao projetor. Tocando a máquina a mão, o operador procurava manter esse ponteiro da cabine na mesma posição que o colocado embaixo da tela, para garantir o sincronismo. Mas, agora, com um simples toca discos unido ao projetos, com o amplificador na mesma cabine, bastava colocar um fio ligando o alto-falante debaixo da tela, o que simplificava tudo! Havia, ainda, um pequeno contratempo. É que os discos que eram gravados com a rotação de 78 só alcançavam três minutos e uma parte de fita alcança 10 minutos. Isso foi resolvido da seguinte maneira: o operador colocava no projetor número um as cenas sincronizadas, como disse, acertando o start do disco e do filme. Enquanto essa cena era projetada, ele colcava no projetor número dois a cena intermediária não sincronizada e no outro toca discos a música que a devia acompanhar. Quando no projetor número um a cena chegava ao fim, ele passava para o projetor número dois, como até hoje se faz na passagem de uma parte para outra. Enquanto essa cena era projetada, ele acertava o start do filme e do disco da segunda cena sincronizada e, no final desta, tornava a passar para o projetor número dois, onde a outra cena musicada já estava preparada. E assim por diante! Como meu aparelho era leva e facilmente portável, eu estava em condições de levar o meu filme falado a cinemas não possuidors de aparelhagem sonora. Para acompanhar e instalar o aparelho nos cinemas, e só para isso, contratei o Moacyr Fenelon, que sequer entrou num local onde eu filmava e nunca teve a menor praticipação nas filmagens de ACABARAM-SE OS OTÁRIOS.
   
 Em 1949 o grande e hoje pouco lembrado cineasta Alberto Cavalcanti, um dos pais do filme documentário no mundo, esteve a convite do Museu de Arte Moderna de SP fazendo uma série de palestra sobre o genero documentário. Depois reunidas foram editadas num livro raro chamado "Filme e Realidade". Lá ele narra uma lista de normas de condutas que ele desenvolveu para uma palestra anterior para jovens diretores dinamarqueses. Aqui vão algumas delas:
Não trate assuntos generalizados: voce pode escrever um artigo sobre os correios, mas deve fazer um filme sobre uma carta. Não se afaste do prinípio segundo o qual existem tres elementos fundamentais: o social, o poético e o técnico. Não negligencie o seu argumente, nem conte com a chance durante a filmagem; quando o seu argumento esta pronto, seu filme esta feito; apenas, ao iniciar a sua filmagem, voce começa novamente. Não confie no comentário para contar a sua história: as imagens e o seu acompanhamento sonoro devem faze-lo; o comentário irrita e o comentário engraçado irrita mais ainda. Não esqueça que quando voce estta filmando, cada tomada é parte de uma sequncia e cada sequencia é parte do todo: a mais bonita das tomadas fora do seu lugar é pior do que a mais banal. Não invente angulos de camara, quando não são necessários; angulos gratuitos são dispersivos e destroem a emoção. Não abuse da montagem rápida; um ritmo acelerado pode ser tão monótono quando o mais pomposo "Largo". Não use música em excesso: se voce o faz, a audiência deixa de ouví-la
Palavras do MESTRE 
 Fiquei muito comovido com o documentário que o(s) músico(s) do hip hop conseguiu fazer e conseguiu mostrar no fantástico (programa da rede globo). Alias comovido é quase nada diante do monumental painel da vida dos alternativos que vivem em função da droga. Mais de 90 horas gravadas em 6 anos acompanhando histórias váriadas com o repetido final. Ele conseguiu algo com impacto da primeira vez, fez história, a imagem recheada de conteúdo íntimo e humanodesumana gente brava. Achei um trecho de um Rap do MV Bill e coloco aqui: Só mais um maluco DIRETO DO HOSPÍCIO QUE CHAMAM DE FAVELA AQUI MAIS UM MALUCO QUE NÃO ACREDITA EM NOVELA SE A VIDA É BELA, NA TELA TUDO BEM QUEM É LOUCO COMO EU VESTE A CAMISA DE FORÇA TAMBÉM MINHA LOUCURA É SIMPLES DE SER COMPREENDIDA ME TRANSFORMARAM EM CANIBAL PRETO SUICIDA INCONFORMADO MENSAGEIRO DA VERDADE PELO POVO AGONIZANDO AS MARGENS DA SOCIEDADE QUE MASSACRA DESTRÓI HUMILHA TRANSFORMA SEU FILHO EM LADRÃO E PROSTITUI SUA FILHA TE ESCRAVIZA TE HUMILHA TE MATA ENQUANTO O VERDADEIRO LADRÃO USA TERNO E GRAVATA NÃO MANUSEIA FUZIL NEM ESCOPETA MATA MILHÕES DE BRASILEIROS SÓ COM UMA CANETA FICA IMPUNE, NÃO VAI PRESO ELE NÃO É POBRE (NÃO) NÃO É PRETO SE FOR CONDENADO FICA EM CELA SEPARADA COM TELEVISÃO FRIGOBAR E ÁGUA GELADA CRIMINOSO COM NÍVEL SUPERIOR FINANCIA A GUERRA O ÓDIO O RANCOR A BURGUESIA FAZ QUESTÃO DE NÃO ENTENDER DISCA 1-9-0 E MANDA OS HOME ME PRENDER O SOCIÓLOGO ME OUVE E FICA PUTO DIZ QUE ESSE BAGULHO DE RAP É COISA DE MALUCO ANALFABETO IGNORANTE SEM CULTURA DIZ QUE QUEM É SÁBIO COM FAVELADO NUNCA SE MISTURA QUEM DIRIA, QUE SABEDORIA ESTUDOU EM OUTRO PAÍS AGORA TEM PAVOR DA MAIORIA MV BILL UM MALUCO CHAPA QUENTE QUE NÃO ACEITA AS COVARDIAS ASSIM TÃO FACILMENTE EU TO LIGADO QUE A ELITE ME ODEIA ME CHAMA DE BANDIDO E DIZ QUE MULHER PRETA E FEIA EU NA CADEIA SENTIRIAM ATÉ PENA MENOS UM PROBLEMA E ME VISTA FORA DE CENA O PESADELO QUE A ELITE NÃO QUER TER BATER DE FRENTE COM ALGUÉM DA CDD TREMA NA BASE QUANDO VÊ O BILL CHAMA A POLÍCIA QUANDO VÊ O BILL AQUELE PRETO COM O CORPO TATUADO DENUNCIANDO A POBREZA E A MISÉRIA DO BRASIL 
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